A história que vos conto hoje é sobre as peripécias de um Pai Vento na difícil tarefa da educação de um filho.
Está um dia abrasador e seca. O Vento está mais preocupado com a sua mais-que-tudo que está a dar à luz. Não tinha nem tempo nem cabeça para ir passear até às praias quentes nem cumprimentar as folhas verdes dos parques. A gravidez tinha sido complicada e nada podia correr mal! Ouviu-se um gemido do quarto dos fundos, seguidos de outro e outro. Uma azáfama de correntes e de outras ventanias que tinham vindo ajudar ao parto. Ele ficara de fora a ver tudo e inquietava-se com tanto reboliço. Ouve-se um assobio, depois dois, três e quatro. Não se suportava o barulho e o Vento foi ver o que se passava. Assim que entrou no quarto, viu as quatro concubinas em redor da cama, lamentando o silencia de mais um sopro, a acalmia de mais um vento. A criança sobrevivera, a mãe perdera-se entre uma qualquer quieta nuvem esponjosa.
Nesse dia, nem o afago do Sol, nem a leveza das nuvens acalmaram a ira do Vento. Assim aconteceu por mais uns dias em que valeu aos pobres mortais a idade já avançada do vento e a sua decrépita força.
Havia, contudo, uma criança para educar e apesar da dor e saudade que sentia, uma bênção tinha-lhe sido dada.
Na educação dos ventos há dois objectivos fundamentais: aprender a voar e a assobiar. É, também, importante educar o seu temperamento, de modo a evitar desastres para os vulneráveis humanos. O pequeno Vento desde cedo se mostrou dotado na arte de voar, inclinava-se com o grau certo e era de uma suavidade tão delicada que deixava todas as moças bonitas com um sorriso na cara à sua passagem. O assobio era um pouco complicado para ele, por causa do pequeno problema respiratório que tinha, mas nada de muito grave que com o tempo não se resolvesse. O temperamento, esse era o mais complicado… o Pai Vento tinha criado, sozinho, uma criança de uma brandura extrema, mas extremamente distraído e teimoso!
Imaginem só a preocupação do Pai Vento no primeiro dia de estágio do seu rebento… Para sua surpresa, o pequeno portou-se à altura! Cumprimentou, suavemente, as folhas do Parque da Cidade e refrescou os rostos dos banhistas. Para se divertir um bocadinho, fez umas folhas de um grupo de estudantes esvoaçar pela esplanada da Praça. Como o reboliço que causou deu umas belas gargalhadas e fê-los rir também!
O assobio não foi perfeito, mas como o objectivo era praticar o voo, ficou aprovadíssimo!
Continuou a praticar, nunca largando a sua distracção e demonstrando por vezes uma teimosia que tirava o pai do sério.
Até que um dia algo de grave chegou aos ouvidos do Pai Vento: O Mau-Vento saíra do seu poiso e decidira destruir cidades inteiras, provocando furacões e tornados que instalaram o pânico naquela população. Pai e filho tinham agora uma tarefa: avisar toda a parte Este da Terra e reunir todos os ventos para travar o malvado! O Sr. Vento já tinha alguma idade e, por isso, incumbiu essa tarefa ao filho. Eram muito importante que ele se dedicasse por inteiro à tarefa. Não só tinha a responsabilidade de avisar outros ventos como de combater o Mau-Vento e pelo teria que enfrentar alguns contratempos preparados pelas brisas traiçoeiras, servas do maldito.
O jovem vento partiu em missão com uma determinação e responsabilidade nunca antes vista e voou as primeiras milhas com tal velocidade que se estivesse a uma altitude inferior teria provocado alguns danos nada bonitos por onde passara.
Escapou de algumas armadilhas como nuvens falsas e emboscadas graças à sua destreza e inteligência e como já tinha avisado uma boa parte dos ventos e ventanias decidiu descansar um pouco e visitar a cidade de Lisboa. Queria passear em todos os seus parques, tocar no Rio Tejo, visitar os mais belos monumentos e dar uma voltinha na Baixa Pombalina, para ver todo aquele reboliço de cidade. Aquando esse último passeio encontrou uma bela moça a esboçar todo aquele cenário de cor, sons e vidas que se cruzam e entrelaçam sem saberem como e porquê, que se tocam através do vento calmo e nem notam a sua presença. Ficou encantado com a sua pele branca e os lábios bem vermelhos e decidiu segui-la, para a tentar conhecer mais um pouco. Ficou horas a observá-la e assim que ela começou a levantar-se ele despertou e preparou-se para a seguir. Passaram por ruas imensas e repletas de confusão, por um parque murcho que recebera pouco cuidado, entraram no metro e ele deixou-se fascinar pela imensidão de gente em tão pequeno espaço… a velocidade do metro não era nada de fantástico, mas achava curioso que o ser humano conseguisse equiparar a rapidez de um monte de metal às capacidades do vento!
Passaram-se dias e dias em que, o agora não tão pequeno, vento só se dedicara à encantadora menina do Chiado até que reparou que a população estava especialmente agitada. Estava em todos os noticiários: o Mau-Vento estava a chegar!
Esquecera-se completamente da sua missão! Por sua culpa a praia lusitana ia ser destruída, assim como a sua musa. A culpa inundou-o e arrebatou-o de tal modo que ficou desorientado. Não sabia o que fazer. A sua distracção tinha-o feito pagar caro. Tinha que resolver o problema de alguma maneira, só não sabia como… Desatou a voar com a máxima rapidez que tinha e ainda conseguiu avisar dois ou três ventos, mas não havia tempo para mais. Tinha que o enfrentar sozinho!
Pediu aos seus companheiros que resguardassem a costa portucalense que ele ia para o Atlântico tentar combater o velho demónio voador.
Assim que se aproximava do maquiavélico vento mais percebi a sua imensidão. No entanto, estava já fraco e velho. Ia ser mais fácil combatê-lo… Ordenou-lhe que parasse, mas de nada valeu. Viu-o revirar barcos e canoas, levar o mar ao extremo da sua rebelião até que decidiu atacá-lo. Voou contra ele e tudo o que se via era uma grande massa, uma espécie de tornado gigantesco de onde nada se conseguia distinguir. Grande foi a confusão até que um deles foi projectado e esvaiu-se em pó de nada. O Mau-Vento tinha sido derrotado, mas os estragos eram irreparáveis.
O outrora pequeno e inocente vento era responsável por cidades destruídas, pessoas sem alimentos e lares, por pessoas sem nada. Tudo o que haviam construído, tudo o que fora projectado estava agora arruinado graças à leviandade e irresponsabilidade de um jovem vento que se perdera na dimensão do impossível e inatingível.
Ao dirigir-se para casa, lembrou-se da sua musa. Procurou-a e acabou ser rápida a busca dado que a encontrou estendida na areia, com a cor da morte e o olhar vazio do fim. Não só perdera o direito a ser vento, como o ser mais bonito que alguma vez encontrara. Estava tudo perdido.
Voltou para casa e foi castigado. A pena foi pesada, mas nada doía mais que a perda do que imaginara ser tudo.
Alguns anos mais tarde, contou esta história aos filhos, no intuito de os ensinar a ser responsáveis e a cumprir com o prometido. Ensinou-lhes o quão duro é perder a confiança de um pai que tudo tinha feito para que nada lhe faltasse; o quão doloroso é sentir o fracasso na pele e o encargo do desabar de meio mundo; e o pior de tudo: o quão difícil é deixar de virar as costas à luz quando esta se esfumou por sua culpa.
1 comentário:
(não sei o que dizer, mas sei que não devia estar aqui «0 comentários»)
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