quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Viagens

O vento sempre volta e tráz consigo o passado amarrado a suas garras. Volta em mar calmo e deixa-o revolto de tanto destruir quimeras de areias moldadas por sonhos de criança.

Da vida que construí, levou o fim. Deixou-me o início apaixonado e obrigou-me a revivê-lo. A qualidade do fim é extrema, mas a perfeição cabe apenas ao início.

Tu, vento, saqueador de núvens, assassino da escuridão, descobres o teu céu e preenches-me de estrelas no cume da noite, no pico da treva que eu venero!

Por isso, vento, não me devolvas o fim, empura meus cabelos contigo, refresca-me a face e leva-me na tua viagem pelos ares do mundo. Pára-me o coração e acalma-me a alma, ensina-me a amar-te e ao que trazes contigo. Faz de mim saque precioso e enterra-me nas profundezas do mar onde o negro é a minha casa. Perguntasses-me se eu o era capaz, responder-te-ia que não. Por isso trago o passado acorrentado ao peito, carrego sempre o meu tesouro comigo por não ter conhecido, na altura, qual o seu valor. E tu sabes que é com ele que construirei o meu porto final. Sabes que sem ele o construiria também, mas teria demasiada cor para coração tão largado na negrura.

1 comentário:

Anónimo disse...

Parece que agora o passado anda na cabeça de toda a gente.
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